

Acho que gosto dos domingos. Pode-se dormir até tarde, ler um jornal que não acrescenta nada à existência de ninguém, olhar com mais cuidado o grande cachorro negro que dorme sobre o tapete, beber devagar o café. Fumar um cigarro sinceramente. Depois, é o vazio. O telefone não toca, o banco não abre, o carteiro não vem, caminha-se pela casa, sem expectativas. Inventam-se problemas que não podem ser resolvidos, hoje é Domingo, afinal. Chove muito — o sol na cidade é para os dias úteis, como se sabe — e não existe perspectiva nenhuma do lado de fora desta janela.
Então, vem a inevitável introspecção, depois da madrugada com os amigos, muitos passaram pela casa hoje silenciosa. O cão, exausto de tanto movimento, fareja a marca dos pés sobre o assoalho antes encerado. Depois de tanta expansão, o corpo quer de novo a sua concha, conteúdo, não mais continente.
Deve ter sido a leitura do poema de Yeats, o fascínio daquilo que é difícil, chama-se. Perseguem-me os versos finais, juro que puxo a tranca da porteira antes que novo dia tenha início.
E nesse Domingo ainda com resíduos do inverno, o supermercado da semana já feito, nenhum ruído humano em volta — com a chuva nem a pelada dos meninos na rua aconteceu — fica-se assim, pensando em si mesmo sem a costumeira condescendência, aquela que na Sexta-feira nos embriagava absolutamente.
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Oi que bom que veio me ver fico muito feliz!